15 de novembro de 2011

Vale do Matadouro

Um rio de lava desceu o vale e penetrou silenciosamente no prado verde, onde alheado do perigo iminente se banqueteava um grupo de vacas e respectivos bezerros.
Os noviços ruminantes são os primeiros a tombar. Se não definham assados na lava incandescente, acabam espezinhados pelos adultos que esquecem até a própria descendência, tal é o pânico instalado.
Do alto de um monte, um velho assiste impávido aos gemidos de dor protagonizados pelos animais, enquanto estes carbonizam, de forma lenta e ascendente, na torrente laranja.
A debandada é geral, mas o fluxo piroclástico é mais lesto. Acabam cercadas, sem um caminho de fuga. Sem porta de saída.
Ao envolver-lhes o pernil, estas começam por sentir uma leve comichão, embora o calor se tenha tornado insuportável.
Neste momento, o velho consegue identificar no ar um cheiro a carne queimada que inunda o vale.
Algo que, inconscientemente, lhe abre o apetite.
Tal como um castrador de esperança, o magma continua a sua subida, tocando o rabo, retendo-se a meros centímetros das tetas leiteiras.
É neste momento que começa o verdadeiro sofrimento.
Guinchos de dor e aflição fazem-se ecoar por todo o vale.
Do pernil já só resta o osso que as mantêm de pé, visto a carne ter já sido consumida pela lava esfaimada.
Altura em que a Aba, local do bovino onde se encontram as entranhas, rebenta, soltando-as em repuxos de sangue e pedaços de carne em brasa.
Algumas conseguem abdicar do sofrimento, mergulhando o focinho no fogo numa tentativa de abreviar o processo de incineração.
Outras, no entanto, de olhos esbugalhados e hipnotizadas por um misto de desespero e resignação, sentem a lava envolver-lhes o lombo num abraço sufocante de quem se despede para a morte.
Todo o vale, após este breve espectáculo macabro, adquire um tom alaranjado que o torna particularmente belo.
Depois de contemplar tudo isto, o velho, no alto do seu monte, vira costas e diz para si próprio:
- Também não gostava muito delas. Estavam sempre a pisar a minha horta.

2 comentários:

Brown Eyes disse...

A horta é das coisas mais importantes, para o velho e não só.
Há sempre um lado positivo para tudo e o velho encontrou-o
Beijinhos

João disse...

Concordo, Mary. Existe sempre um lado positivo, em tudo. O velho tê-lo encontrado, reflete precisamente a minha opinião... Mas este texto tem muito que se lhe diga. Mais até, do que eu próprio te consigo dizer. hehehe