26 de janeiro de 2012

Se te queres matar! (Álvaro de Campos)

Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...



Fernando Pessoa

14 comentários:

Olinda disse...

este é bom para declamar a um suicída em vésperas de suicídio. :-)

Olinda disse...

(que é para resultar em vida) :-)

João disse...

Fernando Pessoa era, de facto, um génio. Cada heterónimo dele tem um estilo próprio, muito bem vincado. Só recentemente o "descobri" e quanto mais o leio, mais o admiro.

Olinda disse...

também lhe reconheço genialidade literária mas não consigo evitar: vejo-o como um homem imensamente frustrado e são poucos os textos que me apaixonam.

João disse...

Muito mesmo! Dá-me a entender que é alguém que não vive bem com ele próprio. Que construi uma barreira entre ele e a felicidade. E por opção, não a ultrapassa.
Mas análise psicológica á parte, é unanimemente um génio da literatura. :-)

Olinda disse...

um monstrinho inspirador de monstrinhos. demente. mas sim, escalou montanhas nunca antes escaladas.

João disse...

Vês que até os monstros podem ser génios, se o Homem os consagrar como tal? Que mundo curioso, este a que pertencemos, Olinda.

Olinda disse...

curioso. e monstruoso.

João disse...

Monstruoso, não sei. Mas que tem monstros, tem. Já os vi.

Olinda disse...

viste? e tinham forma de gente? :-)

João disse...

Infelizmente andam disfarçados, Olinda. A forma de os reconhecer, é fingir que se dorme. Porque é nessa altura, que eles tiram a máscara e se permitem revelar, em todo o seu explendor.

Olinda disse...

discordo. os monstros revelam-se quando, precisamente, simplesmente não fingimos - os monstros vivem da mentira. :-)

João disse...

Para quem está bem a Leste, aparentas ter bússola.
Suponho que já te tenhas cruzado com algum... :-)

Olinda disse...

:-)